sábado, 17 de março de 2018

AVISO AOS POETAS: CUIDADO COM O DESLUMBRAMENTO


Anos atrás, revisando um livro de escritor amigo, disse que determinada frase estava errada, estava sem sentido, as palavras estavam tropeçando umas nas outras e não deslizando suavemente como é natural. Ele disse que a frase estava errada, mas que o texto estava bonito. E agora? Fica bonito com português errado ou é melhor ficar bonito com português correto? Esse foi um dos casos de deslumbramento que me aconteceu. Vamos ver o segundo.

Dia desses um poeta jovem apresentou-me um poema tão cheio de tropeços que era até difícil de ler. Tomei o poema dele, revisei-o, troquei algumas palavras, enfim, deixei o poema deslizante, gostoso de ler e com português correto. Enviei-lhe o poema devidamente corrigido, ele leu e disse: “Que pena! Perdeu o encanto”.

Por que perdeu o encanto? Porque o deslumbramento faz o poeta escrever a toque de emoção e, nesse caso, não importa que palavras usar, importa o encanto, o deslumbramento. O poeta deslumbrado dá excessivo valor a seus sentimentos, mas não entende que, na hora de expressá-los, é preciso cuidar da linguagem, da norma culta, do português correto. É bom lembrar que esse poeta postou seu poema num de seus blogs, mas me avisou que seria postado do jeito que ele escreveu e não do jeito que eu havia revisado.

É isso que eu chamo de deslumbramento e foi através de fatos como esses que descobri o porquê de alguns poetas não gostarem que se mexa em seus trabalhos porque o deslumbramento é tanto que, se a obra nasceu daquela forma (errada), numa hora de profunda emoção, é assim que terá de ficar.

O deslumbramento também ocorre com certas descobertas (erradas) que certas pessoas fazem. Uma vez, dando aulas de português para um rapaz (já não tão jovem), percebi, ao lhe fazer um ditado, que ora escrevia certas palavras com “s”, ora com “z”. Fiquei observando aquilo durante um certo tempo e acabei propondo-lhe um teste. Disse a ele, escreva aí a palavra “casa”; ele escreveu “casa” com “s”. Agora escreva “mesa”, ele escreveu “mesa” com “s”. Agora escreva “casado”, ele escreveu “casado” com “z”. Escreva agora a palavra “mesário”, ele escreveu “mesário” com z. Isso posto, cheguei à seguinte conclusão: quando a letra “s” aparecia numa sílaba átona, como em “casa”, por exemplo, ele usava o “s”; quando a letra “s” aparecia uma sílaba tônica, como “mesário” por exemplo, ele escrevia com “z”. Então, perguntei-lhe por que ele escrevia as sílabas átonas com “s” e as tônicas com “z”. Ele me disse que foi assim que ele descobriu e que se sentia muito orgulhoso de sua descoberta. Não sei se chegou a ler alguma gramática ou acabou descobrindo por sua conta própria sem ler gramática alguma. Entretanto, o final dessa história foi extremamente dramático para mim, como creio que seria para qualquer professor de português; quando lhe disse que sua descoberta estava toda errada, ele me respondeu: “Mas foi assim que eu descobri e é assim que vai ficar”. Pronto! Não se fala mais nisso.

Deslumbramento total além do que perigoso. Há no mundo muitas dessas pessoas que se dizem batalhadoras, que correm atrás das coisas e que gostam de descobrir tudo a seu modo.

Portanto, meus caríssimos poetas, não se deixem levar pelo deslumbramento e pelo encanto excessivo ao escrever seus poemas. Nunca deixem que a emoção excessiva suplante a boa linguagem. Revisem seus poemas, leiam uma, duas, três, quatro vezes, e deixem-se encantar também por um português bonito e bem escrito.

Um famoso diretor teatral brasileiro, Antunes Filho, disse certa vez, numa entrevista, que o ator nunca deve trabalhar com a emoção, mas sim com a sensibilidade. A sensibilidade não tem o mesmo fragor da emoção e, com ela, você pode se dar ao luxo de burilar seu poema, de cortar aqui, lixar ali, retocar lá etc., mas parece que a emoção e o deslumbramento impedem todas essas possibilidades.
E tenho dito.

Dado Carvalho

Sorocaba, 18 de março de 2018

Um comentário:

  1. Maravilha. Sempre fico atento, esperando ansioso novas postagens do seu blog caro amigo Dado Carvalho. Abraço

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