segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

INSPIRAR-SE SEM COPIAR




Muitas vezes, ao lermos um poema, ficamos pensando: “Por que não fui o primeiro a pensar nisso? Por que não me ocorreu essa ideia?” Aí começa aquele bichinho a incomodar nossa cabeça: “Preciso fazer algo do mesmo nível; preciso aprender a ter essas ideias, porém não posso copiar o poeta, mas... fazer o quê?”


Quando José Cândido de Carvalho escreveu “E o trem engolia distâncias com fome de léguas”, pensei em como escrever aquilo de outra forma porém com a mesma criatividade, entretanto, me parecia que o escritor já havia esgotado todo o léxico em cima daquela frase. Não sobrou nada para mim. Mas, mesmo assim, ainda tentei coisas como: “E o trem sugava distâncias faminto de quilômetros” Ah! Ah! Ah! Que coisa horrível! Mas, continuei tentando: “E o trem singrava os trilhos sedento de distâncias”. Não, nada disso funcionava, mesmo porque o verbo singrar está relacionado apenas às embarcações marítimas ou fluviais, ou seja, singrar é navegar, portanto, não serve para trens. Mas vou tentar mais uma, e esta será a última: “E o trem corria velozmente, na ânsia de chegar a seu destino”. Não! Pobreza total. Paremos por aqui.



Tudo isso foi para mostrar a vocês o quão difícil é sermos originais, sermos donos daquela ideia que o mundo inteiro copiará. Vamos lembrar aqui de uma cena do filme “O Pecado Mora ao Lado”, onde o vento do metrô levanta o vestido de Marilyn Monroe. Quantas e quantas vezes aquela cena foi copiada?

Vamos lembrar também da cena do filme Titanic, quando Leonardo Di Caprio e Kate Winslet abrem os braços na proa do navio. Essa cena também foi copiada um sem número de vezes aí pelas novelas da vida, então, nos perguntamos: “Por que não pensei nisso primeiro?”. Simples: quando o diretor do filme pensou nessa cena, pensou em algo simples, ou seja, um rapaz simulando um voo com sua namorada na proa de um navio, nada demais, entretanto, aquilo ficou grudado na cabeça das pessoas e tornou-se um ícone do cinema tanto quando o vestido de Marilyn Monroe. 

Bem, vamos deixar de lado agora os trens e o cinema da vida e vamos ao que interessa.

Vamos ler novamente o poema de Quintana.

O Tempo

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa. 
Quando se vê, já são seis horas! 
Quando de vê, já é sexta-feira! 
Quando se vê, já é natal... 
Quando se vê, já terminou o ano... 
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida. 
Quando se vê passaram 50 anos! 
Agora é tarde demais para ser reprovado... 
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio. 
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...

O grifo no último verso é meu.

Quando li este último verso, fiquei muito irritado comigo mesmo exatamente pelo fato de não ter pensado antes em jogar fora a casca dourada e inútil das horas. Fiquei com aquilo na cabeça, mas desta vez, prometi a mim mesmo que escreveria um poema em que aparecesse a palavra casca. Inicialmente, não sabia ao certo que tipo de casca jogaria fora, mesmo porque a casca dourada e inútil das horas já havia sido jogada ao longo do caminho pelo poeta. Não sobrara nada para mim.

Mas, como lhes havia dito, dessa vez eu teimei. Vejam como a teimosia pode resultar em algo aproveitável:


INCÊNDIO

Quando senti cheiro de palavras queimadas,
julguei que alguém ficara mudo.

Procurei entre as cinzas uma ou outra letra;
quem sabe uma sílaba que fosse.
Nada. Apenas cascas de frases carbonizadas.

As coisas que você não me disse.
Palavras que se calaram em sua boca.
Preferiu incendiá-las a dizer-mas.

Não me importo.
Também fiz minha fogueira particular
e toquei fogo nos meus sonhos,
em todos os sonhos em que havia você.

Restaram-me apenas a realidade do dia-a-dia,
coisas simples como uma caneca d’água,
lamparina de querosene, prato de ágata,
panela de ferro e... meu bilboquê.

Coisas velhas, mas ainda servíveis,
fieis a seus donos.

Queime mais alguma coisa,
aproveite que ainda há brasas vivas
que restaram de seu incêndio.

Queime seu orgulho, seu narcisismo,
toque fogo no seu espelho,
se tiver coragem.

Tenho um riacho que murmura a meus pés,
e sua linguagem livre é única.
Não há fogo que destrua suas palavras.
Ouço-as e entendo-as.

Sou, com o riacho, o que nunca pude ser com você:
cúmplice.

DADO CARVALHO
23.11.2012 – 23:40h

Meus amigos, o importante é que meu poema nada tem a ver com o de Mário Quintana nem a casca é a mesma, mas que eu fiz um poema com casca, isso fiz.


E tenho dito!

domingo, 18 de fevereiro de 2018

BONS SENTIMENTOS MERECEM BOAS PALAVRAS


Ontem, dia 17 de fevereiro de 2018, estava a conversar, via WhatsApp, com um jovem poeta romântico que submeteu um de seus escritos ao meu crivo.

Lendo seu poema, percebi que algumas palavras tropeçavam, eram muito secas e as construções muito óbvias. Isso posto, propus-lhe reescrever seu poema, usando palavras mais brilhantes, mais poéticas, o que tornava o texto mais liso, mais deslizante, mais escorregadio, em resumo, gostoso de ler.

Depois de ter lido minha versão de seu poema, o poeta me disse que sua poesia havia perdido todo o encanto.

Não me surpreendi com isso, e por quê? Porque quando o poeta escreve no auge da inspiração (principalmente o poeta romântico), não importa que tipo de palavreado está usando, o que importa é a expressão de seu sentimento e, se seu sentimento foi expresso com aquelas palavras frágeis, às vezes rudes e nada poéticas, é ali que reside seu “encanto”, logo, o ato de trocar certas palavras, o ato de mudar a ordem de sua colocação no texto, o ato de suavizar a linguagem, tudo isso é, para o poeta, a morte de seu trabalho, a morte de seu “encanto”.

Não concordo com isso. Acho que todo o bom sentimento merece boas palavras.

Tempos atrás, um poeta jovem apresentou-me um poema em forma de acróstico cujas iniciais dos versos formavam o nome de uma garota. O poema era horrível, com versos forçados de modo a obedecer às letras do nome da moça. Arrumei o poema, deixei-o liso e suave e o enviei ao jovem poeta. Ele sequer leu o poema, apenas prestou atenção no nome de sua amada, formado pelas iniciais dos versos. Segundo o próprio poeta, aquilo, o nome da moça, sim, tinha importância para ele, o resto era de menos.

Bem, voltando ao poeta com quem conversei ontem, no meio do debate a que nos entregamos, disse-lhe que a tal “perda de encanto”, que se deu por força de minha revisão, devia-se àquilo que eu chamo de “falta de maturidade na escrita”. O bom poeta não se pode deixar levar apenas por seu próprio encanto, mas sim encantar os outros, os leitores de seus poemas e, para isso, nada melhor do que boas palavras.

Isso posto, acabei entendendo por que certos poetas não gostam que seus poemas sejam revisados (há alguns que gostam e até agradecem); é a questão do “encanto”, é a questão do “sentimento digitado, escrito, impresso” ainda que em linguagem pobre.

Pensem, agora, nesta pérola poética de Mário Quintana:

O Tempo

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa. 
Quando se vê, já são seis horas! 
Quando de vê, já é sexta-feira! 
Quando se vê, já é natal... 
Quando se vê, já terminou o ano... 
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida. 
Quando se vê passaram 50 anos! 
Agora é tarde demais para ser reprovado... 
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio. 
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...

O grifo no último verso é meu.

Agora, vamos ao trem. Numa aula, propus aos alunos descreverem, de modo poético, um trem em alta velocidade. Os resultados foram quase todos iguais: “o trem corre velozmente pelos trilhos”; “o trem corre em alta velocidade sobre a estrada de ferro”; “o trem corre numa velocidade incrível”. Não passou disso. Depois que todos escreveram suas frases, mostrei a eles como o escritor José Cândido de Carvalho, no livro “Olha para o Céu, Frederico”, registrou a passagem de um trem em alta velocidade:

“E O TREM ENGOLIA DISTÂNCIAS COM FOME DE LÉGUAS”


E tenho dito. 

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

COLOCAÇÃO PRONOMINAL




Texto retirado do site Mundo Educação


Os pronomes oblíquos átonos possuem a função sintática de complementos verbais, por isso, existem algumas regras que determinam sua colocação em relação ao verbo. Vamos analisá-las individualmente:

→ Ênclise – pronome depois do verbo

a) Quando o verbo aparecer no início da oração:
Emprestou-me o carro.
b) Quando o verbo estiver no imperativo afirmativo:
Traga-me o carro!
c) Quando o verbo estiver no gerúndio:
Ele quis ajudar tranzendo-me o carro.
d) Quando o verbo estiver no infinitivo pessoal:
Ele precisa trazer-me o carro.

→ Próclise – pronome antes do verbo

a) Na presença de palavras ou locuções de sentido negativo:
Não me trouxe o carro.
Ninguém nos ajudou.
b) Na presença de advérbios:
Amanhã me trarão o carro.
               MAS
Amanhã, trarão-me o carro. (na presença da vírgula, recomenda-se o uso da ênclise)
c) Na presença de pronomes relativos:
O carro que lhe emprestei foi devolvido.
d) Na presença de pronomes indefinidos:
Alguém nos trouxe o carro.
e) Na presença de pronomes demonstrativos neutros:
Isso me irrita muito.
f) Na presença de conjunções e locuções subordinativas:
Estou feliz, porque me pediu em casamento.
g) Na presença de enunciados que expressem uma exortação, exclamação e nas perguntas diretas:
Deus lhe guarde!
Quem me emprestará o carro?
h) Na presença de locuções verbais e nos tempos compostos – geralmente o pronome antecede o verbo auxiliar:
Ele tem me emprestado o carro.
Este barulho está me irritando muito.

→ Mesóclise – pronome entre o radical e as desinências de tempo

a) Quando o verbo estiver no futuro do presente ou no futuro do pretérito sem precedência de palavras que atraem o pronome (advérbios, pronomes relativos, palavras com sentido negativo, pronomes demonstrativos neutros, pronomes indefinidos, conjunções e locuções subordinativas).
Emprestar-me-ão o carro amanhã.
Devolver-nos-ão o dinheiro.
Atenção: O uso da mesóclise está mais restrito a alguns contextos formais de uso escrito da linguagem, ou seja, está praticamente em desuso.

domingo, 28 de janeiro de 2018

LINGUAGEM LITERÁRIA E LINGUAGEM NÃO  LITERÁRIA

(Texto extraído do livro Novo Horizonte, volume I, de Izaías Branco da Silva e Braz Ogleari, Companhia Editora Nacional, 1984)

É fácil distinguir um texto literário de outro não-literário.

1. A linguagem não-literária é técnica, científica, apenas informativa, sem preocupação estética ou artística, e é chamada de linguagem denotativa, pois o que está escrito é exata e somente aquilo que o autor quer dizer.

Observe:

Ventos. As diferenças de temperatura e, consequentemente, de pressão atmosférica, são os principais responsáveis pelos deslocamentos das massas de ar sobre a superfície terrestre.

Os ventos sopram das regiões de alta para as de baixa pressão. O ar, ao se aquecer, sofre um processo de dilatação e, ficando mais leve, eleva-se, sendo substituído por um ar mais frio. O ar que sobe origina uma área de baixa pressão, e o que desce produz alta pressão. Como a atmosfera do equador é quente, existe ali uma faixa de baixa pressão e ar ascendente, chamada zona de calmarias, o que muito dificultou a navegação dos barcos à vela.

A direção dos ventos é indicada por um aparelho chamado anemoscópio e por meio de objetos que ele movimenta, como o catavento, a biruta, a rosa-dos-ventos.

2. A linguagem literária é conotativa, ou seja, vai além do que está escrito, sugerindo interpretações diversas, despertando sentimentos variados, mostrando preocupação com a beleza e cuidado especial com o estilo ou maneira de expressar. Observe, como exemplo, este poema que também fala dos ventos:

XVIII

Para F. Soares Coelho

Esses inquietos ventos andarihos
Passam e dizem: "Vamos caminhar.
Nós conhecemos misteriosos trilhos,
Bosques antigos onde é bom cismar...

E há tantas virgens a sonhar idílios!
E tu não vieste sob a paz lunar,
Beijar os seus entrefechados cílios
E as dolorosas bocas a ofegar..."

Os ventos vêm e batem-me à janela:
"A tua vida, que fizeste dela?"
E chega a morte: "Anda, vem dormir...

Faz tanto frio... E é tão macia a cama..."
Mas toda a longa noite inda hei de ouvir
A inquieta voz dos ventos que me chama!...

Quintana, Mário - POESIAS, 4ª Ed. Globo, Porto Alegre, 1977, pág. 15.

MÁRIO QUINTANA é gaúcho de Alegrete (1907). Ligado à Editora Globo, faz traduções e publica seus trabalhos em jornais e revistas. Admirado e lido tanto pelos intelectuais como pelo povo em gera, devido à beleza, ao tom coloquial, a sonoridade e à extrema sensibilidade de seus poemas. Além da obra citada, não deixem de ler pelo menos uma destas: Caderno H, Espelho Mágico, Quintanares, Apontamentos de História Sobrenatural (a melhor de todas).

Nota: como o texto acima foi transcrito de um livro editado em 1984, é bom saber que Mário Quintana faleceu em  1994. Quem quiser saber mais detalhes sobre esse grande poeta, favor acessar o site:

AGORA É O DADO QUEM FALA.

Muitas vezes percebemos em algumas poesias um texto excessivamente denotativo; um texto que descreve uma cena ou que, praticamente, conta uma história, entretanto, sem apresentar nada de poesia. Foi por essa razão que escrevi aquele poema "Não gosto de poemas românticos", exatamente pelo fato de os poemas românticos serem sempre muito parecido uns com os outros e serem também muito descritivos.

Poemas que dizem coisas como:

Você é tudo na minha via.
Sem você seria muito difícil viver.

Sua companhia me faz sonhar,
traz-me paz de espírito e acalma meu coração.
Não poderia jamais viver sem você
porque você é tudo para mim.

Desejo que nunca se separe de mim,
pois se isso acontecer, será o meu fim.

O poema acima, escrito por mim agora mesmo, demonstra que não há poesia alguma em seu conteúdo. Apresenta apenas uma série de versos óbvios, tão óbvios quanto à descrição dos ventos. É, pois um poema feito com uma linguagem denotativa, onde tudo o que se entende é aquilo que está escrito e mais nada.

Agora, percebam, neste poema de Florbela Espanca, uma das poetisas que mais escreveram sobre o amor, a diferença entre seu poema e o que escrevi acima:

Amar!

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"



UM ALERTA AOS QUE GOSTAM DE ESCREVER POESIA

Já vi certos poemas que foram compostos da seguinte maneira: o poeta escreveu um texto em prosa e depois foi cortando-o em pequenas linhas, que ele chamou de versos. Entretanto, por conta desse procedimento, há alguns versos terminados em preposição, o que não é nada elegante. Vejam só:

Os ventos sopram das regiões de 
alta para as de baixa pressão. 
O ar, ao se aquecer, sofre 
um processo de dilatação e,
ficando mais leve, eleva-se, 
sendo substituído por um ar mais frio. 
O ar que sobe origina uma
área de baixa pressão, 
e o que desce produz alta pressão. 
Como a atmosfera do equador é quente, 
existe ali uma faixa de baixa pressão
e ar ascendente, chamada zona de calmarias, 
o que muito dificultou
a navegação dos barcos à vela. 

Se quisermos fazer um bom número de comédia, basta tentar declamar isso. 

Por enquanto é só. E tenho dito.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

FALANDO E ESCREVENDO CORRETAMENTE

Por que falamos de modo errado certas palavras? Primeiramente porque, acredito, as pessoas estão lendo muito pouco. Nada melhor que a leitura para enriquecermos nosso vocabulário e escrever corretamente as palavras. Certa vez, conversando com um amigo, via não sei que meio de comunicação, mesmo porque na ocasião ainda não existia o Whatsapp (mas nossa comunicação foi por escrito), dizia-me ele que havia completado seu curso de cabeleireiro e que já estava trabalhando num salão tal, endereço tal etc. Diante de tão boa notícia, escrevi o seguinte: “Que bom! Fico feliz!” ao que ele respondeu: “Fiquei, sim”.

Muito engraçado, não? Pois é, ele entendeu que eu havia dito “Ficô feliz?”, o que, na ortografia seria: “Ficou feliz”. Mas eu não queria pergunta a ele se havia ficado feliz, eu disse que eu ficara feliz, mas ele entendeu de outra forma.

É muito comum vermos hoje, principalmente nas legendas dos filmes (que está um horror, com algumas exceções) palavras escritas da mesma maneira como são faladas. Por exemplo:
− Não gosto desta casa, morar aqui me OPRIMI!
− Vim para o campo a fim de FUGI do burburinho da cidade.
− Peça ao João para VIM me buscar.
− Queimei o PIRU, por isso, tive de SAPECA uma galinha.

Bem, está havendo muita confusão a respeito disso, ou seja, as pessoas estão trocando as vogais finais das formas verbais e confundindo infinitivo com outras formas.
Vejamos:

− Não gosto desta casa, morar aqui me OPRIMI!
Agora vamos conjugar o verbo OPRIMIR no presente do indicativo:

Eu oprimo
Tu oprimes
Ele OPRIME
Nós oprimimos
Vós oprimis
Eles oprimem

− Vim para o campo a fim de FUGI do burburinho da cidade.
Está errado. Aqui deve ser usado o infinitivo do verbo FUGIR, logo: “Vim para o campo para FUGIR do burburinho da cidade”.
− Peça ao João para VIM me buscar.
Errado. Aqui também deve ser usado o verbo no infinitivo: VIR. Portanto, “Peça ao João para VIR me buscar”.
− Queimei o PIRU, por isso, tive de SAPECA uma galinha.
Aqui há dois erros. Embora, na língua falada, pronunciemos PIRU, a ortografia manda escrever PERU. O verbo SAPECAR deveria estar no infinito. Vejam a conjugação:

Eu sapeco
Tu sapecas
Ele SAPECA
Nós sapecamos
Vós sapecais
Eles sapecam

É bom que todos nossos colegas poetas entendam que, na língua falada, reduzimos as vogais finais O e E para U e I, mas isso não pode acontecer na escrita. Vejamos:
− Quer um pedaço de bolo(u)?
− Não gosto desta casa, morar aqui me oprime(i).

MAIS UMA COISA QUE TODO O MUNDO ERRA:

− Gostaria muito de viver aqui, MAIS, infelizmente não posso no momento.
Esse MAIS é um advérbio de intensidade, significa em maior quantidade, em maior intensidade. Por exemplo: "Acho que você deveria estudar mais”. MAIS também significa cessação de limite quando acompanhado de negação. “Cansou-se muito na subida, então, não caminhou MAIS”. Portanto, o MAIS, na oração acima está simplesmente incorreto e sem sentido.

Agora, vejam o seguinte:

− O João estudou bastante, MAS, mesmo assim, não passou na prova.
Vejam que o MAS introduz uma oração que é exatamente o oposto do que foi dito na primeira, ou seja, é uma CONJUNÇÃO ADVERSATIVA, exatamente porque a segunda oração é adversa da primeira porque, na verdade, se João estudou bastante, pela lógica deveria ter passado na prova, mas, aconteceu exatamente o oposto: João não passou; por isso, usamos a conjunção MAS.
Essa conjunção poderá ser substituída por: porém, contudo, entretanto, todavia.
− Gostaria muito de viver aqui, PORÉM, infelizmente não posso no momento.
− Gostaria muito de viver aqui, CONTUDO, infelizmente não posso no momento.
− Gostaria muito de viver aqui, TODAVIA, infelizmente não posso no momento.

OUTRA COISA QUE O BRASIL INTEIRO ERRA:

− Pois é, o namorado dela, AO INVÉS de ir a São Paulo, foi a Curitiba.

Tudo errado. Por quê? Porque somente se usa AO INVÉS quando uma coisa é o inverso da outra e, no caso acima, não creio que Curitiba seja o inverso de São Paulo. Aqui, estamos usando uma coisa NO LUGAR DE OUTRA, portanto, EM VEZ DE SENTAR-SE NUMA CADEIRA, FOI SENTAR-SE NA ESCADA. Escada ficou no lugar da cadeira, ou seja, uma coisa em vez de outra. Portanto:
− Pois é, o namorado dela, EM VEZ de ir a São Paulo, foi a Curitiba.

Então, quando é que podemos usar esse termo AO INVÉS?

Ora, só podemos usá-lo quando uma coisa for exatamente o inverso de outra. Por exemplo: qual é o inverso de FRIO? O inverso de frio é QUENTE. Qual é o inverso de SUBIR? O inverso de SUBIR é DESCER.

− Ao invés de falar, podia calar-se um pouco.
− Demoramos para chegar aqui, porque ao invés de virarmos à esquerda, viramos à direita.


Vejam que FALAR é o oposto de CALAR e ESQUERDA é o oposto de DIREITA.  Portanto, em casos como estes, usamos AO INVÉS.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

O POETA E O INFERNO DAS RIMAS

Há poetas, principalmente os iniciantes, que entendem o ato de rimar, jogando verbos no infinitivo no final de cada verso.

Bem, antes é preciso salientar o que é verso. Verso é cada linha do poema:

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

Podem perceber que este magnífico poema de Cecília Meireles apresenta dezesseis versos divididos em quatro estrofes. Damos o nome de estrofe ao conjunto de versos.

Mas, voltemos ao assunto inicial: as rimas.

Muitos poetas acreditam que rimar significa jogar verbos no infinitivo para o final de cada verso. Então, temos alguns horrores mais ou menos assim:

Cinco semanas com você quero passar
e apenas seu rosto quero olhar.
Quero que sinta que todo meu amor vou lhe dar
e para sempre com você vou sonhar.
Cinco semanas com você quero passar,
para todas as noites com você sonhar.

E assim a baboseira dos verbos no fim de cada verso vai seguindo seu caminho. Entretanto, é bom pararmos um pouco e lermos novamente o poema “Motivo”, de Cecília Meireles, e prestar bastante atenção nas palavras que a poetisa usou em suas rimas, sem colocar nenhum verbo no infinitivo no fim dos versos.

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

Colegas poetas, iniciantes na poesia, prestem atenção nas rimas que o poema de Cecília Meireles apresenta. Vejam a riqueza da construção nesse poema pleno de delicadeza; um poema que é uma verdadeira melodia.

RIMAS SOANTES E RIMAS TOANTES

Chamamos de “rima soante” quando os finais das palavras são idênticos. Vejam no poema de Cecília Meireles que “existe” rima com “triste” e “completa” rima com “poeta”.

“Rima toante” é aquela em que, a partir da sílaba tônica somente as vogais são iguais: serra/bela, cara/fada.

Por agora é só, porém vou deixar a vocês o link para um site que achei interessante cujo assunto é a rima:


Neste outro link vocês poderão ler sobre estrofes, rimas e versos.



terça-feira, 26 de dezembro de 2017

ESCRITORES E ESCREVEDORES; POETAS
E FAZEDORES DE POESIA

Caríssimos colegas poetas e escrevedores em geral.
Ao fazer este blog, minha intenção é auxiliar os colegas em suas criações literárias, evitando, assim, os corriqueiros erros que ocorrem hoje em dia na língua portuguesa escrita ou falada.
Há duas coisas muito inquietantes nestes tempos modernos: uma delas é um número cada vez maior de poetas que surgem por esse Brasil afora. A segunda é que esse número cada vez maior de poetas não sabe escrever corretamente o português.

A terceira coisa é o fato de a nossa querida língua portuguesa estar a cada dia mais esculhambada. Vejam só o que sites importantes da Internet estão escrevendo:


Segundo eu saiba, em português, o adjetivo deve sempre concordar com o substantivo em gênero e número, portanto, se a palavra “hábitos” está no plural, o adjetivo “novo” deveria estar, obrigatoriamente, no plural também.

Mas não é só isso. Há muito mais coisas no âmbito da língua portuguesa, no modo como está sendo falada escrita no momento, que simplesmente nos deixa pasmo. Vejam:



Uma das coisas que os brasileiros estão falando de maneira totalmente errada é a seguinte:

Esta casa está bem melhor pintada do que a casa vizinha.

Seu vestido está bem melhor costurado do que o dela.

José é melhor comportado nas aulas do que João.

É completamente errado dizermos que uma casa está melhor pintada do que a outra ou que o vestido da moça está melhor costurado do que o da amiga ou que um aluno é melhor comportado do que o outro. Então, como deveríamos dizer ?

Simples:

Esta casa está mais bem pintada do que a outra.
Seu vestido está mais bem costurado do que o dela.
José e mais bem comportado do que João.

O que precisamos entender é que o advérbio “bem” não está ligado ao advérbio “mais” e sim aos particípios dos verbos apresentados: “bem pintada”, “bem costurado”, “bem comportado”. Portanto, as três orações acima são as corretas.

Outro erro muito recorrente no português moderno:

Os alunos desta escola, eles estarão de férias a partir de segunda-feira.

Os professores, eles deverão dar aulas de reposição aos sábados.

Os artistas, eles não estão gostando do fechamento do teatro X.

No caso acima exposto, notamos que todas as três orações parecem ter dois sujeitos, por exemplo: “os alunos desta escola” mais “eles”. Ora, por que usar o pronome eles quando já foi especificado o sujeito da oração? Logo, o correto será dizer:

Os alunos desta escola estarão de férias a partir de segunda-feira.

Não há necessidade do pronome pessoal depois do sujeito. Portanto, os termos “os alunos desta escola”, “os professores” e “os artistas” deixam de ter sentido nas orações acima.

O mais engraçado é que ouvimos muito isso até mesmo com os jornalistas da televisão, entretanto, nunca vi escrito, o que parece ser algo pertencente apenas à fala.

Outra coisa que devemos observar é a distribuição das palavras na oração. As novelas de televisão têm sido as maiores fabricantes desse “distúrbio” na língua portuguesa. Vejam:

“Quer dizer que vocês foram na casa da dona Verônica de praia e não aconteceu nada?” (Fala de uma personagem da novela da Rede Globo de Televisão).

“Estou me sentindo mal. Acho que foi alguma coisa que eu comi e não posso no almoço”. (Também de uma personagem de novela da Rede Globo de Televisão).

“Mas a gente não pode entrar lá, nem a Teresa entrou que é mãe”. (Dito também por uma personagem de novela da Rede Globo de Televisão).

“Você mudaria de cidade por alguém ou estado?” (Texto postado no Facebook numa página de relacionamento).

“Este é o rapaz que eu te falei”. (Alguém apresentando um rapaz a outro).

Bem, meus caríssimos amigos, o que vocês acabaram de ver é um tremendo desastre na língua portuguesa, portanto, vamos dar um jeito nisso:

“Quer dizer que vocês foram à casa de praia de dona Verônica e não aconteceu nada?”

“Estou me sentindo mal. Acho que foi alguma coisa que eu comi no almoço e não deveria ter comido”.

“Mas a gente não pode entrar lá, nem a Teresa, que é mãe, entrou”.

“Você mudaria de cidade, ou de estado, por alguém?”

“Este é o rapaz de quem te falei”.

Na sequência deste estudo, gostaria de que você lessem um artigo muito interessante, publicado no site:



Leiam porque é de suma importância para todos os que escrevem.

O ERRO MAIS COMUM ENTRE OS POETAS

O erro que com mais frequência observamos entre os poetas é a mistura de pronomes e formas verbais num único texto. Vejam:[

Meu amor, em ti deposito minhas angústias, meus apelos.
Rogo-vos que de mim te compadeças
e enxugue minhas lágrimas com suas mãos de seda
pois sei que vosso coração é complacente.
Faça isso por mim, pois algum dia hei de agradecer a você
por todo o bem que me tem feito.

Notaram, meus caríssimos amigos, a verdadeira sopa de pronomes que fizemos no poema acima? Tudo errado. Vamos ver por quê.

Meu amor, em ti deposito minhas angústias, meus apelos.
(Aqui foi usada a segunda pessoa do singular: TU)

Rogo-vos que de mim te compadeças
e enxugue minhas lágrimas com suas mãos de seda
(Aqui já foi usada a segunda pessoa do plural: VÓS, havendo também uma discordância com o pronome possessivo SUAS, que, no caso deveria ser VOSSAS).

Faça isso por mim, pois algum dia hei de agradecer a você
por todo o bem que me tem feito.
(Aqui, indevidamente, já entrou o pronome de tratamento VOCÊ).

Isso posto, podemos notar que o poeta misturou todos os pronomes possíveis num único texto. Por favor, não façam isso. O uso de pronomes deve ser uniforme em todo o texto, portanto, vamos fazer aqui uma demonstração:

COM O PRONOME “TU”:

Meu amor, em ti deposito minhas angústias, meus apelos.
Rogo-te que de mim te compadeças
e enxuga minhas lágrimas com tuas mãos de seda
pois sei que teu coração é complacente.
Faz isso por mim, pois algum dia hei de agradecer-te
por todo o bem que me tem feito.

COM O PRONOME “VÓS”:

Meu amor, em vós deposito minhas angústias, meus apelos.
Rogo-vos que de mim vos compadeças
e enxugai minhas lágrimas com vossas mãos de seda
pois sei que vosso coração é complacente.
Fazei isso por mim, pois algum dia hei de agradecer-vos
por todo o bem que me tendes feito.

COM O PRONOME DE TRATAMENTO “VOCÊ”:

Meu amor, em você deposito minhas angústias, meus apelos.
Rogo-lhe que de mim se compadeça
e enxugue minhas lágrimas com suas mãos de seda
pois sei que seu coração é complacente.
Faça isso por mim, pois algum dia hei de agradecer-lhe
por todo o bem que me tem feito.

Perceberam a diferença? O poeta deverá sempre escolher em que pessoa deseja escrever seu poema, pois a misturança de pronomes e de formas verbais não é aceita.

E tenho dito.