sábado, 17 de março de 2018

AVISO AOS POETAS: CUIDADO COM O DESLUMBRAMENTO


Anos atrás, revisando um livro de escritor amigo, disse que determinada frase estava errada, estava sem sentido, as palavras estavam tropeçando umas nas outras e não deslizando suavemente como é natural. Ele disse que a frase estava errada, mas que o texto estava bonito. E agora? Fica bonito com português errado ou é melhor ficar bonito com português correto? Esse foi um dos casos de deslumbramento que me aconteceu. Vamos ver o segundo.

Dia desses um poeta jovem apresentou-me um poema tão cheio de tropeços que era até difícil de ler. Tomei o poema dele, revisei-o, troquei algumas palavras, enfim, deixei o poema deslizante, gostoso de ler e com português correto. Enviei-lhe o poema devidamente corrigido, ele leu e disse: “Que pena! Perdeu o encanto”.

Por que perdeu o encanto? Porque o deslumbramento faz o poeta escrever a toque de emoção e, nesse caso, não importa que palavras usar, importa o encanto, o deslumbramento. O poeta deslumbrado dá excessivo valor a seus sentimentos, mas não entende que, na hora de expressá-los, é preciso cuidar da linguagem, da norma culta, do português correto. É bom lembrar que esse poeta postou seu poema num de seus blogs, mas me avisou que seria postado do jeito que ele escreveu e não do jeito que eu havia revisado.

É isso que eu chamo de deslumbramento e foi através de fatos como esses que descobri o porquê de alguns poetas não gostarem que se mexa em seus trabalhos porque o deslumbramento é tanto que, se a obra nasceu daquela forma (errada), numa hora de profunda emoção, é assim que terá de ficar.

O deslumbramento também ocorre com certas descobertas (erradas) que certas pessoas fazem. Uma vez, dando aulas de português para um rapaz (já não tão jovem), percebi, ao lhe fazer um ditado, que ora escrevia certas palavras com “s”, ora com “z”. Fiquei observando aquilo durante um certo tempo e acabei propondo-lhe um teste. Disse a ele, escreva aí a palavra “casa”; ele escreveu “casa” com “s”. Agora escreva “mesa”, ele escreveu “mesa” com “s”. Agora escreva “casado”, ele escreveu “casado” com “z”. Escreva agora a palavra “mesário”, ele escreveu “mesário” com z. Isso posto, cheguei à seguinte conclusão: quando a letra “s” aparecia numa sílaba átona, como em “casa”, por exemplo, ele usava o “s”; quando a letra “s” aparecia uma sílaba tônica, como “mesário” por exemplo, ele escrevia com “z”. Então, perguntei-lhe por que ele escrevia as sílabas átonas com “s” e as tônicas com “z”. Ele me disse que foi assim que ele descobriu e que se sentia muito orgulhoso de sua descoberta. Não sei se chegou a ler alguma gramática ou acabou descobrindo por sua conta própria sem ler gramática alguma. Entretanto, o final dessa história foi extremamente dramático para mim, como creio que seria para qualquer professor de português; quando lhe disse que sua descoberta estava toda errada, ele me respondeu: “Mas foi assim que eu descobri e é assim que vai ficar”. Pronto! Não se fala mais nisso.

Deslumbramento total além do que perigoso. Há no mundo muitas dessas pessoas que se dizem batalhadoras, que correm atrás das coisas e que gostam de descobrir tudo a seu modo.

Portanto, meus caríssimos poetas, não se deixem levar pelo deslumbramento e pelo encanto excessivo ao escrever seus poemas. Nunca deixem que a emoção excessiva suplante a boa linguagem. Revisem seus poemas, leiam uma, duas, três, quatro vezes, e deixem-se encantar também por um português bonito e bem escrito.

Um famoso diretor teatral brasileiro, Antunes Filho, disse certa vez, numa entrevista, que o ator nunca deve trabalhar com a emoção, mas sim com a sensibilidade. A sensibilidade não tem o mesmo fragor da emoção e, com ela, você pode se dar ao luxo de burilar seu poema, de cortar aqui, lixar ali, retocar lá etc., mas parece que a emoção e o deslumbramento impedem todas essas possibilidades.
E tenho dito.

Dado Carvalho

Sorocaba, 18 de março de 2018

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

PONTUAR OU NÃO PONTUAR, EIS A QUESTÃO!



Meus caríssimos amigos, antes de iniciar o artigo de hoje, gostaria de lembrar (embora saiba que estou tratando com poetas de alto gabarito) de que VERSO é cada linha do seu poema e cada grupo de versos chamamos de ESTROFE. Assim, o poema abaixo tem quatro estrofes. As duas primeiras estrofes tem quatro versos cada uma e as duas últimas apenas três versos. Esse tipo de poema, feito com dois QUARTETOS e dois TERCETOS, leva o nome de SONETO.

Agora vamos ao que interessa.

Sou a favor da pontuação nos versos de um poema. Sou também a favor de que o primeiro verso de cada estrofe seja iniciado com LETRA MAIÚSCULA, desde que se inicie um pensamento; os verbos seguintes deverão ser iniciados com letras minúsculas enquanto não se terminar o pensamento.
Observem estes versos de Mário Quintana no poema “Este quarto”.

Este quarto de enfermo, tão deserto
de tudo, pois nem livros eu já leio
e a própria vida eu a deixei no meio
como um romance que ficasse aberto...

que me importa este quarto, em que desperto
como se despertasse em quarto alheio?
Eu olho é o céu! Imensamente perto,
o céu que me descansa como um seio.  (Aqui termina um pensamento)

Pois só o céu é que está perto, sim,
tão perto e tão amigo que parece
um grande olhar azul pousado em mim. (Aqui termina outro pensamento)

A morte deveria ser assim:
um céu que pouco a pouco anoitecesse
e a gente nem soubesse que era o fim. (Aqui termina o último pensamento)

Podem observar que, nos dois primeiros quartetos, há um único pensamento, pensamento esse que termina na segunda estrofe, levando, portanto, o ponto final.

Os dois tercetos seguintes encerram, cada um, um pensamento e, ao final de cada pensamento, coloca-se ponto final na estrofe e dá-se início ao outro pensamento.

Cada pensamento inicia-se com letra maiúscula.

Entretanto, o mesmo Quintana escreve o poema “Canção da ruazinha desconhecida” com todos os versos iniciados por maiúsculas. Vejam:


Ruazinha que eu conheço apenas
Da esquina onde ela principia...

Ruazinha perdida, perdida...
Ruazinha onde Marta fia...

Ruazinha em que eu penso às vezes
Como quem pensa numa outra vida...

E para onde hei de mudar-me um dia,
Quando tudo estiver perdido...

Ruazinha da quieta vida...
Tristonha, tristonha...

Ruazinha onde Marta fia
E onde Maria, na janela, sonha.

Na minha modesta opinião, embora isso não seja regra, já que cada poeta escreve à sua maneira, sou a favor dos versos pontuados e que a inicial maiúscula apareça apenas no início do pensamento. Veja como fica fácil ler este poema de Henriqueta Lisboa, “Os lírios”:

Certa madrugada fria
irei de cabelos soltos
ver como crescem os lírios.

Quero saber como crescem
simples e belos – perfeitos! –
ao abandono dos campos.

Antes que o sol apareça
neblina rompe neblina
com vestes brancas, irei.

Irei no maior sigilo
para que ninguém perceba
contendo a respiração.

Sobre a terra muito fria
dobrando meus frios joelhos
farei perguntas à terra.

Depois de ouvir-lhe o segredo
deitada por entre lírios
adormecerei tranquila.

É interessante observar que a poetisa Henriqueta Lisboa não usa uma única vírgula, sendo que, na maioria dos versos essa pontuação seria necessária. Mas isso deve ser “modismo” de poeta. O escritor José Saramago, por exemplo, não coloca ponto de interrogação nas perguntas que faz em seus romances. Por quê? “Estilismo pessoal” talvez.

Continuemos.

O que acontece quando um poema é escrito com todos os versos iniciados em maiúsculas e sem pontuação? Acontece que dificulta a declamação. Por que dificulta? Porque tenho de ler o poema várias vezes até saber onde termina um pensamento e começa outro; se não soubermos isso, o poema poderá perder seu sentido. Vamos tentar exemplificar abaixo (o exemplo é meu):

Às vezes sonho acordado
Admirando as estrelas do céu
Lá onde o dia se acaba
Vestindo manto escuro, negro
A esconder-se sob as nuvens
Surge lua timorata
Com vergonha de você
E no amor que cultivamos
Nesta vida de embaraços
Sonhamos juntos um sonho
O sonho do amor sem fim

Visto o exemplo acima, perguntamos: onde termina o primeiro pensamento? em “estrelas do céu” ou em “lá onde o dia se acaba”?

Será que o primeiro pensamento não termina em “vestindo mando, escuro, negro”? Será que pode ser? Vejamos:

Às vezes sonho acordado,
admirando as estrelas do céu.

Lá onde o dia se acaba,
vestindo manto escuro, negro,
a esconder-se sob as nuvens,
surge lua timorata
com vergonha de você.

E no amor que cultivamos,
nesta vida de embaraços,
sonhamos juntos um sonho:
o sonho do amor sem fim.

Vamos tentar agora uma outra forma:

Às vezes sonho acordado,
admirando as estrelas do céu,
lá onde o dia se acaba.

Vestindo manto escuro, negro,
a esconder-se sob as nuvens,
surge lua timorata
com vergonha de você.

E no amor que cultivamos,
nesta vida de embaraços,
sonhamos juntos um sonho:
o sonho do amor sem fim.

Concluindo, digo que o propósito deste artigo e exortar meus caros poetas, a pontuarem seus poemas, sejam com versos iniciando-se em maiúscula ou minúscula.

Grande abraço a todos.

E tenho dito.

DADO CARVALHO
Sorocaba, 22 de fevereiro de 2018








segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

INSPIRAR-SE SEM COPIAR




Muitas vezes, ao lermos um poema, ficamos pensando: “Por que não fui o primeiro a pensar nisso? Por que não me ocorreu essa ideia?” Aí começa aquele bichinho a incomodar nossa cabeça: “Preciso fazer algo do mesmo nível; preciso aprender a ter essas ideias, porém não posso copiar o poeta, mas... fazer o quê?”


Quando José Cândido de Carvalho escreveu “E o trem engolia distâncias com fome de léguas”, pensei em como escrever aquilo de outra forma porém com a mesma criatividade, entretanto, me parecia que o escritor já havia esgotado todo o léxico em cima daquela frase. Não sobrou nada para mim. Mas, mesmo assim, ainda tentei coisas como: “E o trem sugava distâncias faminto de quilômetros” Ah! Ah! Ah! Que coisa horrível! Mas, continuei tentando: “E o trem singrava os trilhos sedento de distâncias”. Não, nada disso funcionava, mesmo porque o verbo singrar está relacionado apenas às embarcações marítimas ou fluviais, ou seja, singrar é navegar, portanto, não serve para trens. Mas vou tentar mais uma, e esta será a última: “E o trem corria velozmente, na ânsia de chegar a seu destino”. Não! Pobreza total. Paremos por aqui.



Tudo isso foi para mostrar a vocês o quão difícil é sermos originais, sermos donos daquela ideia que o mundo inteiro copiará. Vamos lembrar aqui de uma cena do filme “O Pecado Mora ao Lado”, onde o vento do metrô levanta o vestido de Marilyn Monroe. Quantas e quantas vezes aquela cena foi copiada?

Vamos lembrar também da cena do filme Titanic, quando Leonardo Di Caprio e Kate Winslet abrem os braços na proa do navio. Essa cena também foi copiada um sem número de vezes aí pelas novelas da vida, então, nos perguntamos: “Por que não pensei nisso primeiro?”. Simples: quando o diretor do filme pensou nessa cena, pensou em algo simples, ou seja, um rapaz simulando um voo com sua namorada na proa de um navio, nada demais, entretanto, aquilo ficou grudado na cabeça das pessoas e tornou-se um ícone do cinema tanto quando o vestido de Marilyn Monroe. 

Bem, vamos deixar de lado agora os trens e o cinema da vida e vamos ao que interessa.

Vamos ler novamente o poema de Quintana.

O Tempo

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa. 
Quando se vê, já são seis horas! 
Quando de vê, já é sexta-feira! 
Quando se vê, já é natal... 
Quando se vê, já terminou o ano... 
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida. 
Quando se vê passaram 50 anos! 
Agora é tarde demais para ser reprovado... 
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio. 
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...

O grifo no último verso é meu.

Quando li este último verso, fiquei muito irritado comigo mesmo exatamente pelo fato de não ter pensado antes em jogar fora a casca dourada e inútil das horas. Fiquei com aquilo na cabeça, mas desta vez, prometi a mim mesmo que escreveria um poema em que aparecesse a palavra casca. Inicialmente, não sabia ao certo que tipo de casca jogaria fora, mesmo porque a casca dourada e inútil das horas já havia sido jogada ao longo do caminho pelo poeta. Não sobrara nada para mim.

Mas, como lhes havia dito, dessa vez eu teimei. Vejam como a teimosia pode resultar em algo aproveitável:


INCÊNDIO

Quando senti cheiro de palavras queimadas,
julguei que alguém ficara mudo.

Procurei entre as cinzas uma ou outra letra;
quem sabe uma sílaba que fosse.
Nada. Apenas cascas de frases carbonizadas.

As coisas que você não me disse.
Palavras que se calaram em sua boca.
Preferiu incendiá-las a dizer-mas.

Não me importo.
Também fiz minha fogueira particular
e toquei fogo nos meus sonhos,
em todos os sonhos em que havia você.

Restaram-me apenas a realidade do dia-a-dia,
coisas simples como uma caneca d’água,
lamparina de querosene, prato de ágata,
panela de ferro e... meu bilboquê.

Coisas velhas, mas ainda servíveis,
fieis a seus donos.

Queime mais alguma coisa,
aproveite que ainda há brasas vivas
que restaram de seu incêndio.

Queime seu orgulho, seu narcisismo,
toque fogo no seu espelho,
se tiver coragem.

Tenho um riacho que murmura a meus pés,
e sua linguagem livre é única.
Não há fogo que destrua suas palavras.
Ouço-as e entendo-as.

Sou, com o riacho, o que nunca pude ser com você:
cúmplice.

DADO CARVALHO
23.11.2012 – 23:40h

Meus amigos, o importante é que meu poema nada tem a ver com o de Mário Quintana nem a casca é a mesma, mas que eu fiz um poema com casca, isso fiz.


E tenho dito!

DADO CARVALHO
Sorocaba, 19 de fevereiro de 2018

domingo, 18 de fevereiro de 2018

BONS SENTIMENTOS MERECEM BOAS PALAVRAS


Ontem, dia 17 de fevereiro de 2018, estava a conversar, via WhatsApp, com um jovem poeta romântico que submeteu um de seus escritos ao meu crivo.

Lendo seu poema, percebi que algumas palavras tropeçavam, eram muito secas e as construções muito óbvias. Isso posto, propus-lhe reescrever seu poema, usando palavras mais brilhantes, mais poéticas, o que tornava o texto mais liso, mais deslizante, mais escorregadio, em resumo, gostoso de ler.

Depois de ter lido minha versão de seu poema, o poeta me disse que sua poesia havia perdido todo o encanto.

Não me surpreendi com isso, e por quê? Porque quando o poeta escreve no auge da inspiração (principalmente o poeta romântico), não importa que tipo de palavreado está usando, o que importa é a expressão de seu sentimento e, se seu sentimento foi expresso com aquelas palavras frágeis, às vezes rudes e nada poéticas, é ali que reside seu “encanto”, logo, o ato de trocar certas palavras, o ato de mudar a ordem de sua colocação no texto, o ato de suavizar a linguagem, tudo isso é, para o poeta, a morte de seu trabalho, a morte de seu “encanto”.

Não concordo com isso. Acho que todo o bom sentimento merece boas palavras.

Tempos atrás, um poeta jovem apresentou-me um poema em forma de acróstico cujas iniciais dos versos formavam o nome de uma garota. O poema era horrível, com versos forçados de modo a obedecer às letras do nome da moça. Arrumei o poema, deixei-o liso e suave e o enviei ao jovem poeta. Ele sequer leu o poema, apenas prestou atenção no nome de sua amada, formado pelas iniciais dos versos. Segundo o próprio poeta, aquilo, o nome da moça, sim, tinha importância para ele, o resto era de menos.

Bem, voltando ao poeta com quem conversei ontem, no meio do debate a que nos entregamos, disse-lhe que a tal “perda de encanto”, que se deu por força de minha revisão, devia-se àquilo que eu chamo de “falta de maturidade na escrita”. O bom poeta não se pode deixar levar apenas por seu próprio encanto, mas sim encantar os outros, os leitores de seus poemas e, para isso, nada melhor do que boas palavras.

Isso posto, acabei entendendo por que certos poetas não gostam que seus poemas sejam revisados (há alguns que gostam e até agradecem); é a questão do “encanto”, é a questão do “sentimento digitado, escrito, impresso” ainda que em linguagem pobre.

Pensem, agora, nesta pérola poética de Mário Quintana:

O Tempo

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa. 
Quando se vê, já são seis horas! 
Quando de vê, já é sexta-feira! 
Quando se vê, já é natal... 
Quando se vê, já terminou o ano... 
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida. 
Quando se vê passaram 50 anos! 
Agora é tarde demais para ser reprovado... 
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio. 
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...

O grifo no último verso é meu.

Agora, vamos ao trem. Numa aula, propus aos alunos descreverem, de modo poético, um trem em alta velocidade. Os resultados foram quase todos iguais: “o trem corre velozmente pelos trilhos”; “o trem corre em alta velocidade sobre a estrada de ferro”; “o trem corre numa velocidade incrível”. Não passou disso. Depois que todos escreveram suas frases, mostrei a eles como o escritor José Cândido de Carvalho, no livro “Olha para o Céu, Frederico”, registrou a passagem de um trem em alta velocidade:

“E O TREM ENGOLIA DISTÂNCIAS COM FOME DE LÉGUAS”


E tenho dito. 

DADO CARVALHO
Sorocaba, 18 de fevereiro de 2018

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

COLOCAÇÃO PRONOMINAL




Texto retirado do site Mundo Educação


Os pronomes oblíquos átonos possuem a função sintática de complementos verbais, por isso, existem algumas regras que determinam sua colocação em relação ao verbo. Vamos analisá-las individualmente:

→ Ênclise – pronome depois do verbo

a) Quando o verbo aparecer no início da oração:
Emprestou-me o carro.
b) Quando o verbo estiver no imperativo afirmativo:
Traga-me o carro!
c) Quando o verbo estiver no gerúndio:
Ele quis ajudar tranzendo-me o carro.
d) Quando o verbo estiver no infinitivo pessoal:
Ele precisa trazer-me o carro.

→ Próclise – pronome antes do verbo

a) Na presença de palavras ou locuções de sentido negativo:
Não me trouxe o carro.
Ninguém nos ajudou.
b) Na presença de advérbios:
Amanhã me trarão o carro.
               MAS
Amanhã, trarão-me o carro. (na presença da vírgula, recomenda-se o uso da ênclise)
c) Na presença de pronomes relativos:
O carro que lhe emprestei foi devolvido.
d) Na presença de pronomes indefinidos:
Alguém nos trouxe o carro.
e) Na presença de pronomes demonstrativos neutros:
Isso me irrita muito.
f) Na presença de conjunções e locuções subordinativas:
Estou feliz, porque me pediu em casamento.
g) Na presença de enunciados que expressem uma exortação, exclamação e nas perguntas diretas:
Deus lhe guarde!
Quem me emprestará o carro?
h) Na presença de locuções verbais e nos tempos compostos – geralmente o pronome antecede o verbo auxiliar:
Ele tem me emprestado o carro.
Este barulho está me irritando muito.

→ Mesóclise – pronome entre o radical e as desinências de tempo

a) Quando o verbo estiver no futuro do presente ou no futuro do pretérito sem precedência de palavras que atraem o pronome (advérbios, pronomes relativos, palavras com sentido negativo, pronomes demonstrativos neutros, pronomes indefinidos, conjunções e locuções subordinativas).
Emprestar-me-ão o carro amanhã.
Devolver-nos-ão o dinheiro.
Atenção: O uso da mesóclise está mais restrito a alguns contextos formais de uso escrito da linguagem, ou seja, está praticamente em desuso.

E tenho dito. 

DADO CARVALHO
13 de fevereiro de 2018

domingo, 28 de janeiro de 2018

LINGUAGEM LITERÁRIA E LINGUAGEM NÃO  LITERÁRIA

(Texto extraído do livro Novo Horizonte, volume I, de Izaías Branco da Silva e Braz Ogleari, Companhia Editora Nacional, 1984)

É fácil distinguir um texto literário de outro não-literário.

1. A linguagem não-literária é técnica, científica, apenas informativa, sem preocupação estética ou artística, e é chamada de linguagem denotativa, pois o que está escrito é exata e somente aquilo que o autor quer dizer.

Observe:

Ventos. As diferenças de temperatura e, consequentemente, de pressão atmosférica, são os principais responsáveis pelos deslocamentos das massas de ar sobre a superfície terrestre.

Os ventos sopram das regiões de alta para as de baixa pressão. O ar, ao se aquecer, sofre um processo de dilatação e, ficando mais leve, eleva-se, sendo substituído por um ar mais frio. O ar que sobe origina uma área de baixa pressão, e o que desce produz alta pressão. Como a atmosfera do equador é quente, existe ali uma faixa de baixa pressão e ar ascendente, chamada zona de calmarias, o que muito dificultou a navegação dos barcos à vela.

A direção dos ventos é indicada por um aparelho chamado anemoscópio e por meio de objetos que ele movimenta, como o catavento, a biruta, a rosa-dos-ventos.

2. A linguagem literária é conotativa, ou seja, vai além do que está escrito, sugerindo interpretações diversas, despertando sentimentos variados, mostrando preocupação com a beleza e cuidado especial com o estilo ou maneira de expressar. Observe, como exemplo, este poema que também fala dos ventos:

XVIII

Para F. Soares Coelho

Esses inquietos ventos andarihos
Passam e dizem: "Vamos caminhar.
Nós conhecemos misteriosos trilhos,
Bosques antigos onde é bom cismar...

E há tantas virgens a sonhar idílios!
E tu não vieste sob a paz lunar,
Beijar os seus entrefechados cílios
E as dolorosas bocas a ofegar..."

Os ventos vêm e batem-me à janela:
"A tua vida, que fizeste dela?"
E chega a morte: "Anda, vem dormir...

Faz tanto frio... E é tão macia a cama..."
Mas toda a longa noite inda hei de ouvir
A inquieta voz dos ventos que me chama!...

Quintana, Mário - POESIAS, 4ª Ed. Globo, Porto Alegre, 1977, pág. 15.

MÁRIO QUINTANA é gaúcho de Alegrete (1907). Ligado à Editora Globo, faz traduções e publica seus trabalhos em jornais e revistas. Admirado e lido tanto pelos intelectuais como pelo povo em gera, devido à beleza, ao tom coloquial, a sonoridade e à extrema sensibilidade de seus poemas. Além da obra citada, não deixem de ler pelo menos uma destas: Caderno H, Espelho Mágico, Quintanares, Apontamentos de História Sobrenatural (a melhor de todas).

Nota: como o texto acima foi transcrito de um livro editado em 1984, é bom saber que Mário Quintana faleceu em  1994. Quem quiser saber mais detalhes sobre esse grande poeta, favor acessar o site:

AGORA É O DADO QUEM FALA.

Muitas vezes percebemos em algumas poesias um texto excessivamente denotativo; um texto que descreve uma cena ou que, praticamente, conta uma história, entretanto, sem apresentar nada de poesia. Foi por essa razão que escrevi aquele poema "Não gosto de poemas românticos", exatamente pelo fato de os poemas românticos serem sempre muito parecido uns com os outros e serem também muito descritivos.

Poemas que dizem coisas como:

Você é tudo na minha via.
Sem você seria muito difícil viver.

Sua companhia me faz sonhar,
traz-me paz de espírito e acalma meu coração.
Não poderia jamais viver sem você
porque você é tudo para mim.

Desejo que nunca se separe de mim,
pois se isso acontecer, será o meu fim.

O poema acima, escrito por mim agora mesmo, demonstra que não há poesia alguma em seu conteúdo. Apresenta apenas uma série de versos óbvios, tão óbvios quanto à descrição dos ventos. É, pois um poema feito com uma linguagem denotativa, onde tudo o que se entende é aquilo que está escrito e mais nada.

Agora, percebam, neste poema de Florbela Espanca, uma das poetisas que mais escreveram sobre o amor, a diferença entre seu poema e o que escrevi acima:

Amar!

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"



UM ALERTA AOS QUE GOSTAM DE ESCREVER POESIA

Já vi certos poemas que foram compostos da seguinte maneira: o poeta escreveu um texto em prosa e depois foi cortando-o em pequenas linhas, que ele chamou de versos. Entretanto, por conta desse procedimento, há alguns versos terminados em preposição, o que não é nada elegante. Vejam só:

Os ventos sopram das regiões de 
alta para as de baixa pressão. 
O ar, ao se aquecer, sofre 
um processo de dilatação e,
ficando mais leve, eleva-se, 
sendo substituído por um ar mais frio. 
O ar que sobe origina uma
área de baixa pressão, 
e o que desce produz alta pressão. 
Como a atmosfera do equador é quente, 
existe ali uma faixa de baixa pressão
e ar ascendente, chamada zona de calmarias, 
o que muito dificultou
a navegação dos barcos à vela. 

Se quisermos fazer um bom número de comédia, basta tentar declamar isso. 

Por enquanto é só. E tenho dito.

DADO CARVALHO
Sorocaba, 28 de janeiro de 2018

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

FALANDO E ESCREVENDO CORRETAMENTE

Por que falamos de modo errado certas palavras? Primeiramente porque, acredito, as pessoas estão lendo muito pouco. Nada melhor que a leitura para enriquecermos nosso vocabulário e escrever corretamente as palavras. Certa vez, conversando com um amigo, via não sei que meio de comunicação, mesmo porque na ocasião ainda não existia o Whatsapp (mas nossa comunicação foi por escrito), dizia-me ele que havia completado seu curso de cabeleireiro e que já estava trabalhando num salão tal, endereço tal etc. Diante de tão boa notícia, escrevi o seguinte: “Que bom! Fico feliz!” ao que ele respondeu: “Fiquei, sim”.

Muito engraçado, não? Pois é, ele entendeu que eu havia dito “Ficô feliz?”, o que, na ortografia seria: “Ficou feliz”. Mas eu não queria pergunta a ele se havia ficado feliz, eu disse que eu ficara feliz, mas ele entendeu de outra forma.

É muito comum vermos hoje, principalmente nas legendas dos filmes (que está um horror, com algumas exceções) palavras escritas da mesma maneira como são faladas. Por exemplo:
− Não gosto desta casa, morar aqui me OPRIMI!
− Vim para o campo a fim de FUGI do burburinho da cidade.
− Peça ao João para VIM me buscar.
− Queimei o PIRU, por isso, tive de SAPECA uma galinha.

Bem, está havendo muita confusão a respeito disso, ou seja, as pessoas estão trocando as vogais finais das formas verbais e confundindo infinitivo com outras formas.
Vejamos:

− Não gosto desta casa, morar aqui me OPRIMI!
Agora vamos conjugar o verbo OPRIMIR no presente do indicativo:

Eu oprimo
Tu oprimes
Ele OPRIME
Nós oprimimos
Vós oprimis
Eles oprimem

− Vim para o campo a fim de FUGI do burburinho da cidade.
Está errado. Aqui deve ser usado o infinitivo do verbo FUGIR, logo: “Vim para o campo para FUGIR do burburinho da cidade”.
− Peça ao João para VIM me buscar.
Errado. Aqui também deve ser usado o verbo no infinitivo: VIR. Portanto, “Peça ao João para VIR me buscar”.
− Queimei o PIRU, por isso, tive de SAPECA uma galinha.
Aqui há dois erros. Embora, na língua falada, pronunciemos PIRU, a ortografia manda escrever PERU. O verbo SAPECAR deveria estar no infinito. Vejam a conjugação:

Eu sapeco
Tu sapecas
Ele SAPECA
Nós sapecamos
Vós sapecais
Eles sapecam

É bom que todos nossos colegas poetas entendam que, na língua falada, reduzimos as vogais finais O e E para U e I, mas isso não pode acontecer na escrita. Vejamos:
− Quer um pedaço de bolo(u)?
− Não gosto desta casa, morar aqui me oprime(i).

MAIS UMA COISA QUE TODO O MUNDO ERRA:

− Gostaria muito de viver aqui, MAIS, infelizmente não posso no momento.
Esse MAIS é um advérbio de intensidade, significa em maior quantidade, em maior intensidade. Por exemplo: "Acho que você deveria estudar mais”. MAIS também significa cessação de limite quando acompanhado de negação. “Cansou-se muito na subida, então, não caminhou MAIS”. Portanto, o MAIS, na oração acima está simplesmente incorreto e sem sentido.

Agora, vejam o seguinte:

− O João estudou bastante, MAS, mesmo assim, não passou na prova.
Vejam que o MAS introduz uma oração que é exatamente o oposto do que foi dito na primeira, ou seja, é uma CONJUNÇÃO ADVERSATIVA, exatamente porque a segunda oração é adversa da primeira porque, na verdade, se João estudou bastante, pela lógica deveria ter passado na prova, mas, aconteceu exatamente o oposto: João não passou; por isso, usamos a conjunção MAS.
Essa conjunção poderá ser substituída por: porém, contudo, entretanto, todavia.
− Gostaria muito de viver aqui, PORÉM, infelizmente não posso no momento.
− Gostaria muito de viver aqui, CONTUDO, infelizmente não posso no momento.
− Gostaria muito de viver aqui, TODAVIA, infelizmente não posso no momento.

OUTRA COISA QUE O BRASIL INTEIRO ERRA:

− Pois é, o namorado dela, AO INVÉS de ir a São Paulo, foi a Curitiba.

Tudo errado. Por quê? Porque somente se usa AO INVÉS quando uma coisa é o inverso da outra e, no caso acima, não creio que Curitiba seja o inverso de São Paulo. Aqui, estamos usando uma coisa NO LUGAR DE OUTRA, portanto, EM VEZ DE SENTAR-SE NUMA CADEIRA, FOI SENTAR-SE NA ESCADA. Escada ficou no lugar da cadeira, ou seja, uma coisa em vez de outra. Portanto:
− Pois é, o namorado dela, EM VEZ de ir a São Paulo, foi a Curitiba.

Então, quando é que podemos usar esse termo AO INVÉS?

Ora, só podemos usá-lo quando uma coisa for exatamente o inverso de outra. Por exemplo: qual é o inverso de FRIO? O inverso de frio é QUENTE. Qual é o inverso de SUBIR? O inverso de SUBIR é DESCER.

− Ao invés de falar, podia calar-se um pouco.
− Demoramos para chegar aqui, porque ao invés de virarmos à esquerda, viramos à direita.


Vejam que FALAR é o oposto de CALAR e ESQUERDA é o oposto de DIREITA.  Portanto, em casos como estes, usamos AO INVÉS.

É isso aí. E tenho dito.


DADO CARVALHO
Sorocaba, 29 de dezembro de 2017